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O medo de jogar bonito

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(Foto: Lance)

Não é de hoje, obviamente, que técnicos estrangeiros vêm ao Brasil para trabalhar. Também não é recente os debates e embates a respeito de suas atuações. Mas, devido ao sucesso precoce que alcançaram Jorge Sampaoli e principalmente Jorge Jesus, esse assunto tomou uma proporção estratosférica neste ano. 

Sampaoli assumiu um Santos sem nenhuma perspectiva no início da temporada. Com elenco limitado, garantir vaga na Libertadores 2019 já seria algo esplendoroso. O argentino, porém, foi muito além. Colocou o alvi negro praiano na luta pelo título brasileiro, algo inimaginável meses atrás.


O caso do rubro negro, no entanto, é ainda mais espantoso, visto que em tão curto período levou um time desacreditado, cobrado, quase eliminado da Libertadores e 8 pontos atrás do então líder do brasileirão, à finalista da principal competição continental - com direito a atropelo na semifinal - e líder com absoluta folga no nacional, além de ser, de forma unânime, reconhecido por comandar o time que apresenta o melhor futebol do país. O rubro negro está muito próximo de atingir uma marca que jamais foi alcançada por clube algum no Brasil desde que o campeonato brasileiro recebeu tal nomenclatura, em 1971: a conquista da Libertadores da América e do brasileirão na mesma temporada. Definitivamente o Flamengo foi da água para o vinho com o Mister. 

Mas o que explicaria este sucesso tão repentino de treinadores vindos de outro país, com maneiras de enxergar o futebol e culturas diferentes das vistas por aqui? E aquele papo, muito dito por aqui, de que é preciso um período de adaptação? Seria mera desculpa para tentar encobrir um trabalho mal feito? Será que realmente nossos treinadores estão ultrapassados? Ou seria por que não entendem tanto assim de tática quanto aparentam falando bonito nas entrevistas?

Bem, eu sinceramente não acredito nisso. Somos o único país pentacampeão do mundo, sempre comandado por treinadores brasileiros. Não consigo acreditar que teríamos cinco Copas do Mundo se não entendêssemos da questão tática. Os profissionais daqui estudam e se especializam constantemente. Pra mim, o motivo é outro. Não é, lógico, o único, mas acredito ser o maior responsável.

E a questão é simples: MEDO. Nossos treinadores se preocupam mais em não perder do que vencer uma partida. Quando você joga assim contra um adversário forte, as chances de derrota crescem uma enormidade. 

Vejamos alguns exemplos.

O River Plate, de Marcelo Gallardo, adversário do Flamengo na final da Libertadores, busca o gol o tempo todo, independente de adversário e mando de campo. Resultado: está na decisão da principal competição sul-americana pela terceira vez em cinco anos.

Desde 2016, quando assumiu o Grêmio pela terceira vez, Renato Gaúcho empilha taças com o tricolor, sempre com um futebol ofensivo e sem medo de ser derrotado por jogar assim.

O Palmeiras de Felipão é um exemplo do oposto disso. Futebol reativo, nenhum pouco empolgante e dependente exclusivamente de bola parada. O ataque ficava em segundo plano. Ano passado contra o Boca Juniors, na Bombonera, pela semifinal da Libertadores, foi a campo claramente para não perder. Eis que a derrota foi inevitável e a eliminação encaminhada. Como dito, você abdicar de jogar contra um time desse é suicídio. Pensei que ele tivesse aprendido a lição, mas não. Contra o Inter, pela Copa do Brasil deste ano, usou da mesma "arma". Mais uma eliminação era escrita. Em 2017, pelas oitavas do principal torneio da Conmebol, o mesmo Palmeiras, desta vez sob o comano de Cuca, foi ao Equador enfrentar o, com todo respeito, mediano Barcelona de Guayaquil com a mentalidade de não perder e trazer a decisão pra São Paulo. Por fim, derrota lá e eliminação aqui.

O próprio Inter usava da mesma artimanha e, apesar de chegar à final da Copa do Brasil, Odair Hellmann nunca foi unanimidade entre os colorados. Acabou demitido.

O Flamengo com Abel Braga usava o mesmo artifício. E ainda que tenha ganho o estadual deste ano, nunca empolgou, longe disso. A conquista do brasileiro estava quase descartada. Na Libertadores faltou pouco para ser eliminado. A demissão foi inevitável. Jorge Jesus assumiu o time e o resto da história vocês já sabem. Sempre com futebol ofensivo, agressivo, buscando o gol a todo custo, sem se importar com rival, mando de campo ou placar. Ontem mesmo, na volta do intervalo, o Flamengo vencia o Grêmio por 1 x 0. Em hipótese alguma ele recuou o time pra segurar o placar, pelo contrário, foi pra cima do tricolor gaúcho e acabou atropelando os comandados de Renato Gaúcho por 5 x 0. Segunda maior goleada em semifinal de Libertadores na história. Fosse um técnico brasileiro, salvo o próprio Renato, teria a mesma atitude? Ou recuaria o time pra segurar o 1 x 0 e por fim correr o risco de tomar a virada e ser eliminado mesmo assim?

Enfim, vale o risco ser ofensivo. Os resultados recentes provam e os estrangeiros nos mostram. Esses profissionais vêm para somar e pra ensinar, basta deixar o ego, a inveja e a arrogância de lado, e aceitar os ensinamentos. A retranca, o medo de perder, na maioria das vezes, não funciona. Isto está claro. Só não enxerga quem não quer.

É como diz Vanderlei Luxemburgo: "o medo de perder tira a vontade de ganhar".



Abraços e até a próxima.

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